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CAMPO DE SANTANA - PRAÇA DA REPÚBLICA

 

Até 1753 a região onde hoje existe o Campo de Santana era simplesmente chamado de Campo da Cidade. Em 1753, quando foi inaugurada a capelinha dedicada à Santana, exatamente onde hoje se ergue o majestoso prédio da Central do Brasil, essa área foi batizada pela santa. Se o nome sobreviveu até hoje, a capela, por sua vez, durou pouco mais de cem anos, haja vista ter sido demolida em 1854 para construção em seu local da primeira estação ferroviária urbana do Brasil, a D. Pedro II, inaugurada em 1858. Hoje ali está o belo prédio art-déco da Central do Brasil, inaugurada em 1941 por Getúlio Vargas. No ano de 1790, o Vice Rei Conde de Rezende, D. José Luís de Castro, mandou a Câmara arruar o campo e loteá-lo, haja vista a crescente expansão da cidade para aquelas plagas. Ganhou então as dimensões atuais. Como a área era pantanosa, estimulou o Vice-Rei para que a população jogasse entulhos no local. Depois de algum tempo, no entanto, acabou virando sim um sumidouro de esgoto, estado que permaneceu até a chegada do Príncipe Regente em 1808.

Com a Côrte, a cidade logo se expandiu de seus acanhados limites que mal chegavam ao Largo do Rocio Grande(Praça Tiradentes), sendo o campo ocupado por chácaras. Em 1810, D. João criou a Cidade Nova, que ia do Campo de Santana até São Cristóvão, com ruas cordeadas para a nobreza. Dois anos antes, no entanto, D. João ordenara a construção de um quartel para tropas no lado direito do campo, onde até então existira um templete para a "Coroação do Imperador" nas festas do Divino Espírito Santo, em maio. Inaugurado também em 1810, à partir dessa data ficava assim definido o logradouro como campo de manobras de militares, proibindo-se desde então o despejo de esgotos.

Vindo ainda da segunda metade do século XVIII, existia também, nas proximidades do campo, a capelinha colonial de São Gonçalo Garcia e São Jorge, êste último da devoção especial dos militares que ali serviam. Centro de peregrinação religiosa com duas capelas e espetáculos marciais com as tropas do quartel, o campo teve sua primeira grande residência particular na casa de Anacleto Elias da Fonseca, comerciante da praça do Rio de Janeiro, que a erguera por volta de 1800 para uma sua amante, uma mulata de péssima reputação. Em 1808, depois de terminado o romance, foi esta casa alugada ao último Vice-Rei do Brasil, D. Marcos de Noronha e Brito, 8o. Conde dos Arcos. Posteriormente foi a tal casa adquirida por comerciantes baianos e ofertada ao Conde, que nela residiu até 1821. Adquirida pelo Estado, sediou o Senado do Império de 1825 até 1889 e no período republicano continuou como tal até 1925. Hoje, desde 1945, nela está sediada a Faculdade Nacional de Direito, órgão educativo da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Chamado sempre de Campo de Santana desde o século XVIII. Em 1817, mudou de nome quando nele foi montado uma arquibancada para touradas, executadas em comemoração ao casamento do Príncipe D. Pedro com a Arquiduquesa da Áustria, Da. Maria Carolina Leopoldina, ocorrido em novembro daquele ano. Passou a ser conhecido como "Praça dos Curros". Depois dos eventos decorrentes do dia do "Fico", em 09 de janeiro de 1822, quando o Príncipe D. Pedro conclamou à população do Rio, ali reunida às pressas no campo para que o defendessem dos soldados portugueses comandados pelo General Jorge de Ávilez, que queriam embarcá-lo à força para Portugal, coisa que não se deu graças à tenacidade do povo carioca, passou o logradouro a ser denominado de "Campo da Honra". No dia 12 de outubro de 1822, D. Pedro I foi nêle aclamado Imperador do Brasil pela população ali reunida, do alto de um palacete especialmente construído no campo para tal. Passaram então a chamá-lo de "Campo da Aclamação". Após os eventos do dia 15 de novembro de 1889, ocorridos no Quartel General do Exército, em seus limites, passou o campo oficialmente a denominar-se "Praça da República". Em épocas mais recentes, ganhou o velho logradouro o efêmero nome de "Parque Júlio Furtado", que foi substituído em 1955 por "Praça da República". Hoje em dia é igualmente chamado de Campo de Santana e Praça da República, conforme a época e o evento ali realizado.

O campo inicialmente não possuía arborização. Em 1810, ganhou um chafariz que era muito utilizado para lavarem roupa, daí o apelido que recebeu de "chafariz das lavadeiras". Nesse mesmo ano foi feita uma primeira arborização de caráter particular, no lado esquerdo do campo, pelo intendente geral de polícia Paulo Fernandes Viana. Esse jardim, de alamedas retilíneas, que pelas gravuras era muito interessante, foi destruído por ordem de D. Pedro em abril de 1821, haja vista a animosidade que o jovem príncipe movia contra o intendente de polícia da Côrte, que denunciara a seu pai muitos desatinos do travesso D. Pedro. Paulo Fernandes, ao saber da destruição de seu amado jardim, teve uma síncope e morreu de imediato.

Em 1873, sendo Presidente da Câmara o Conselheiro João Alfredo Correia de Oliveira, foi aprovado um projeto de arborização do Campo de Santana. Contratou-se o paisagista francês Auguste Marie François Glaziou, que executou um elegante parque arborizado em estilo inglês, com árvores nativas e estrangeiras, inaugurado solenemente por D. Pedro II e diversas autoridades em 1880. Ornado com lagos, repuxos, estátuas e obras de arte, ainda sobrevive, salvo 1.800m2 perdidos em 1942, quando da abertura da avenida Presidente Vargas.

Entrando pela rua Visconde do Rio Branco, antiga rua do Conde da Cunha e Conde D`Eu, aberta ainda no terceiro quartel do século XVIII, vê-se, logo à direita, na esquina, a bela delegacia de polícia construída no princípio do século XX em estilo eclético. Ao seu lado, o enorme edifício que foi a casa do Barão de Ubá, onde em meados do século XIX se instalou o Museu Nacional, fundado por D. João em 1818 e muito ampliado por D. Pedro I e D. Pedro II. Em 1896 foi transferido para o antigo Palácio Imperial de São Cristóvão, onde ainda se encontra. Para o velho edifício do Campo de Santana foi então destinado o Arquivo Nacional, fundado por D. Pedro II em 1838 e desde fins da década de 1980 funcionando no prédio da antiga "Casa da Moeda", do outro lado do campo.

Seguindo-se em frente, vê-se à esquerda o enorme palacete eclético do Quartel do Corpo de Bombeiros, ali estabelecido desde 1864, sendo que o edifício atual foi erguido de 1898 a 1908 sob projeto do Coronel Francisco Marcelino de Souza Aguiar. Mais adiante, a entrada da rua Frei Caneca, antiga rua das "Boas Pernas", haja vista que era um areal fofo de difícil circulação, exigindo boas pernas dos pedestres para atravessá-lo. Logo na esquina fica o sobradão eclético da antiga "Gafieira Elite", instituição popular de danças que remonta ao princípio do século XX e hoje uma das mais tradicionais casas de diversão da cidade.

Dobrando-se à direita, passa-se pelo moderno edifício do Hospital Souza Aguiar, inaugurado em 1909 pelo mesmo Coronel Souza Aguiar que projetou o Corpo de Bombeiros, então Prefeito do Distrito Federal(1906-09). O prédio atual foi construído em 1963, pelo Governador do Estado da Guanabara, Carlos Lacerda. Logo após o hospital, ainda está de pé o belo palacete eclético do antigo Tribunal Militar, ainda ocupado por repartições daquele órgão. Passando o Largo do Caco, que é uma contração de "Centro Acadêmico Cândido de Oliveira", está o prédio neoclássico da Faculdade Nacional de Direito, antigo Solar do Conde dos Arcos. Colado à ele está o feio prédio art-déco de 1935 da Rádio Mayrink Veiga. Logo depois está um dos maiores palácios neoclássicos do Rio de Janeiro. O bonito prédio da antiga Casa da Moeda, inaugurada em 1861 com uma exposição nacional, sob projeto do engenheiro Theodoro de Oliveira. Quando a Casa da Moeda foi para o Parque Industrial de Santa Cruz, em 1970, o prédio foi deixado cair em ruínas, até ser convertido em sede do Arquivo Nacional, que o está restaurando, aos poucos. Segue-se a ela a pequenina casa colonial onde morou em 1889 o Marechal Manuel Deodoro da Fonseca, que dela saiu a 15 de novembro para derrubar o Ministério Ouro Preto, terminando por proclamar a República, um pouco à contragosto de seu instituidor, que confessava a amigos abertamente ter sido monarquista até aquela manhã. Após a morte de seu ilustre morador, em 1895, foi a casa adquirida pelo Governo, que, depois de ter-lhe dado diversas finalidades, deixou-a cair em ruínas. Em 1968 foi reconstruída e hoje está incorporada aos bens do Museu Histórico do Exército, tendo o nome oficial de "Casa de Deodoro".

Quando se abriu a avenida Presidente Vargas, em 1942/44, foi removido para o interior do campo o monumento ao Coronel Benjamim Constant, prócer da República e seu mentor principal. Demoliu-se também na mesma ocasião o antigo edifício da prefeitura, construção da época do Império e que sediou a Ilustríssima Câmara de Vereadores desde 1825(foi sua 13a. sede). Em 1892 nele se instalou o primeiro prefeito do Rio, Cândido Barata Ribeiro(logo, foi a primeira prefeitura). Hoje no local passa a avenida Presidente Vargas. Na esquina desta com o campo, está o prédio moderno da Biblioteca Estadual do Rio de Janeiro, instituição exemplar com fartíssima coleção de livros sobre a cidade e o Estado do Rio de Janeiro. Suas modernas instalações foram projetadas pelo arquiteto Glauco Campello. Ao seu lado, fazendo vigoroso contraste, a delicada igrejinha de São Gonçalo Garcia e São Jorge, este último santo adorado também pelos praticantes de religiões afro-brasileiras.

Campo de Santana ou Praça da República, nomes utilizados indistintamente pelos freqüentadores, é uma fronteira geográfica entre o centro da cidade e a cidade nova. Tornou-se, ao longo dos séculos, um grande marco cívico de nossa urbe, onde todas as tradições mais diversas encontram-se sem conflitos, como um lugar onde as crenças, credos e fé antes se completam.

No dia 02 de julho de 1856 foi criado pelo Decreto no. 1.775 o "Corpo Provisório de Bombeiros da Côrte", reunindo numa só corporação as diversas seções de "apagadores de incêndio" que existiam nos Arsenais de Guerra e Marinha, Repartição de Obras Públicas e Casa de Correção. Em 1860, foi o Corpo de Bombeiros organizado definitivamente, cujo efetivo passou a ser de 109 homens.

Em 1864 foi criado o quartel do Corpo de Bombeiros no Campo de Santana. Com o rápido crescimento da cidade, tornou-se diminuto, impondo-se sua reconstrução. Em 1898 o Presidente da República Campos Sales autorizou a construção de um novo quartel, cujo projeto coube ao Coronel (depois Marechal) Francisco Marcelino de Souza Aguiar, engenheiro-arquiteto dos mais gabaritados, e que seria Prefeito do Rio em 1906/09. As obras prosseguiram com vagar, sendo apenas inauguradas no dia 23 de maio de 1908, pelo Presidente Afonso Pena, tendo ocorrido na ocasião pomposa festa de inauguração, onde foram testados com sucesso diversos equipamentos. O Presidente da República subiu os 268 degraus da tôrre de observação e secagem de mangueiras para apreciar o panorama, afinal de contas, era, naquela época, das mais altas construções da cidade.

O prédio possui elegante fachada em estilo eclético, inspirado na arquitetura românica francesa. Internamente, possui elaborada estrutura em ferro vinda da Europa e acabamento requintado. Custou, ao preço da época, a vultuosa quantia de 1.302 contos. A construção é tombada pelo município.

 

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